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MAPA DE DANOS - a importância de fazer uma avaliação crítica antes de se intervir num bem cultural construído

Recomendações ao profissional de Gestão de Restauro

Mapa de Danos com registros da FIDs
Mapa de Danos monumento à N. Sra. de Lourdes, praça Dom Ulrico, João Pessoa - PB

A documentação é um dos pilares fundamentais na conservação e no restauro, constituindo-se não apenas um registro do estado de conservação de um bem construído, mas um instrumento de análise, diagnóstico e de tomadas de decisões.

Entre os diversos tipos de documentação no âmbito do patrimônio cultural construído, o mapa de danos ocupa posição central, pois permite a visualização espacializada das patologias e alterações, a identificação de padrões de deterioração e a definição quanto as prioridades de intervenção. Entretanto, quando do início das intervenções propriamente ditas, quando esse documento foi elaborado por outra equipe, em um momento já passado (seja muito ou pouco tempo), e com metodologias possivelmente distintas, torna‑se indispensável se proceder a uma avaliação crítica antes de quaisquer ações previstas num projeto.

A literatura especializada enfatiza que a documentação em conservação é sempre contextual, interpretativa e temporal. O mapa de danos não é uma fotografia neutra da realidade, mas uma leitura técnica condicionada por critérios, metodologias e tecnologias disponíveis no momento da sua elaboração. Por isso mesmo, mapas de danos antigos não podem ser utilizados como instrumentos definitivos, eles precisam ser confrontados com o estado atual do bem, com novas tecnologias de análise e com abordagens metodológicas mais diretas em face das maiores possibilidades de acessos aos componentes e elementos.

Nesse contexto, tenho procurado, no campo da documentação aplicada à conservação e ao restauro arquitetônico, destacar que o mapa de danos é um documento vivo, que deve ser atualizado periodicamente e interpretado criticamente, especialmente quando utilizado por equipes diferentes daquelas que o produziram. A avaliação crítica desses documentos é, portanto, uma etapa ética e técnica que pretende garantir a qualidade das intervenções e a preservação da integridade material e histórica do bem.


O mapa de danos como documento técnico e interpretativo

O mapa de danos é uma representação gráfica e analítica das patologias e das alterações presentes num bem cultural. Visa identificar fenômenos como fissuras, desplacamentos, lacunas, biodeteriorações, manchas, deformações, pulverulências, eflorescências e outros processos de degradação. Embora seja um documento técnico, ele não é totalmente objetivo, porque envolve escolhas metodológicas, critérios de classificação e interpretações feitas por um técnico ou equipe responsável.

Nas minhas aulas ou preleções procuro enfatizar que, o mapa de danos é um instrumento de diagnóstico e gestão, e não apenas um registro gráfico. A elaboração do mapa exige observação sistemática, critérios claros de classificação e rigor na representação gráfica, e que a função é de subsidiar decisões de conservação, manutenção e restauro. Nessa perspectiva, a interpretação do documento é feita por leitura técnica, e toda leitura depende da formação/qualificação do observador, sua experiência, metodologia e objetivos.

A literatura sobre mapeamento em áreas correlatas, como geociências e gestão de riscos, reforça que todo mapeamento é condicionado à metodologia adotada e pelos objetivos do estudo. Amaral et al. (2007) observam que “a identificação e análise de risco realizada por meio de mapeamentos em escala de detalhe constitui importante instrumento para o gerenciamento [...] possibilitando planejar, diagnosticar e monitorar situações”. Embora o contexto seja o de áreas de riscos geológicos, o princípio pertinentemente análogo, ou seja, mapas são instrumentos de leitura técnica, não podem ser considerados verdades absolutas.

Da mesma maneira, estudos sobre mapeamento participativo têm ressaltado que, documentos cartográficos “terão suas características próprias, de acordo com a metodologia adotada” e que diferentes abordagens geram diferentes representações da realidade (Araújo, Anjos & Rocha‑Filho, 2017). Em conservação e restauro, isso significa que cada equipe pode empregar terminologias distintas (apesar dos esforços do ICOMOS e outras instituições em criar léxicos ou glossários especializados), níveis variados de detalhamento e critérios próprios de classificação dos danos.

Assim, ao herdar um mapa de danos, elaborado por uma outra equipe e que também já apresente certa caducidade, o Gestor de Restauro precisa reconhecer que está diante de um documento interpretativo, condicionado por escolhas técnicas e conceituais que podem não coincidir com as práticas conceitualmente mais atuais e adequadas.


A necessidade de atualização − o estado de conservação é dinâmico

Bens culturais construídos, especialmente aqueles expostos a condições ambientais instáveis ou ao uso contínuo, sofrem alterações constantes. Os processos de decaimento natural podem se acelerar, estabilizar ou aparecer inesperadamente. Por isso, um mapa de danos, elaborado decorrido certo tempo, pode não refletir mais a realidade atual.

Procuro sempre destacar que, o mapa de danos deve ser entendido como um documento dinâmico, que precisa ser atualizado sempre que houver mudanças significativas no estado de um ou mais componentes. A documentação deve acompanhar o ciclo de vida da edificação, do bem, permitindo monitorar a evolução das patologias e alteração para orientar ações de conservação preventivas.

A comparação entre o mapa antigo e a situação atual permite identificar: a evolução de danos já registrados, o surgimento de novas patologias, a estabilização ou desaparecimento de danos anteriores, os efeitos de intervenções passadas, as mudanças nas condições ambientais.

Mapa de Danos do Tacaruna
Mapa de Danos da antiga Fábrica Tacaruna - Recife - PE

Uma análise comparativa é essencial para a construção de uma linha do tempo das degradações e alterações, que vem auxiliar na melhor compreensão das causas e na definição das estratégias preventivas.


Diferenças metodológicas entre equipes e períodos históricos

Um aspecto crítico importante de se observar é que metodologias de mapeamento evoluem com o tempo. Tecnologias como fotogrametria digital, RTI (Reflectance Transformation Imaging), escaneamento 3D e sistemas de informação geográfica (SIG) aplicados ao patrimônio tornaram‑se mais acessíveis e precisos nas últimas décadas. Além disso, normas e terminologias vão sendo padronizadas em muitos países, reduzindo-se ambiguidades.

Um mapa de danos elaborado há 3, 5, 10 ou mais anos pode ter sido produzido sem o uso de tecnologias digitais, com terminologias consideradas imprecisas, com critérios de classificação não mais apropriados, com escalas ou representações gráficas menos precisas. É importante observa que, a documentação quanto ao estado de conservação de um bem deve ser coerente com os padrões técnicos vigentes e que a falta de padronização pode comprometer a interpretação dos danos e das alterações. Neste sentido, as FIDs - Fichas de Identificação de Danos são indispensáveis ao mapa, pois permitem registrar informações analíticas que não podem ser representadas graficamente.

Assim como no mapeamento geográfico, onde “os documentos cartográficos gerados [...] terão suas características próprias, de acordo com a metodologia adotada” (Araújo et al., 2017), o mapeamento de danos de uma edificação de valor cultural também reflete o estado da arte de sua época.

A avaliação crítica permite harmonizar o documento antigo com os padrões atuais, garantindo-se coerência metodológica e facilitando-se a comunicação entre equipes multidisciplinares.


Riscos de se utilizar mapas de danos antigos ou elaborados por outros sem revisão

A utilização acrítica de mapas de danos pode comprometer uma intervenção de diversas maneiras: primeiro, com diagnósticos equivocados, onde um dano registrado anteriormente pode ter evoluído, desaparecido ou se transformado. Basear decisões em informações desatualizadas pode levar a tratamentos inadequados; segundo, intervenções desnecessárias ou excessivas, quando a ética da conservação preconiza a mínima intervenção (necessária), particularmente quando no caso de um mapa antigo indicar danos que já não existem ou que se estabilizaram, a equipe pode ser levada a intervir sem necessidade; terceiro, omissão de danos recentes, de novas patologias podem não estar registradas, especialmente aquelas decorrentes de eventos recentes como infiltrações, vandalismo ou falhas estruturais; quarto, incompatibilidade com materiais e técnicas mais atuais para o saneamento de agentes de deterioração; quinto, violação de princípios éticos ao se trabalhar com dados desatualizados comprometendo a integridade/autenticidade do bem


Avaliação crítica como etapa metodológica essencial

A avaliação crítica de um mapa de danos deve ser entendida como uma etapa metodológica estruturada, que envolve:

−  Análise documental: verificação da data, autoria e metodologia utilizada; identificação de terminologias e classificações empregadas; avaliação da escala e precisão gráfica; confronto com as FIDs, quando disponíveis. Lembrando que, as fichas de identificação de danos são essenciais para se compreender a natureza, extensão, causas e origens prováveis de cada dano e alteração, e que ausência ou inconsistência delas compromete a interpretação do mapa.

− Verificação in loco: conferência de cada dano registrado; identificação dos danos e alterações não registrados anteriormente; avaliação da evolução das patologias.

−  Atualização e complementação: inclusão de novos registros; correção de interpretações equivocadas; adaptação da nomenclatura aos padrões mais adequados (atuais).

− Integração com novas tecnologias: fotogrametria digital para precisão métrica; RTI (Reflectance Transformation Imaging ou Imagem de Transformação de Refletância) para análise de superfícies; SIG ou GIS (Sistema de Informação Geográfica) para integração de dados espaciais; escaneamento em 3D para documentação volumétrica.

− Revisão das hipóteses diagnósticas: no caso, das interpretações das causas dos danos pode ter mudado com novos estudos e tecnologias - uma revisão crítica permite atualizar essas hipóteses.

Mapa de Danos de Tambiá - João Pesso, PB
Mapa de Danos da Bica de Tambiá - João Pessoa-PB

Importância da documentação comparativa

A comparação entre mapas de danos de diferentes épocas é uma ferramenta poderosa para a gestão do patrimônio, pois ela permite que sejam identificados padrões de deterioração; avaliadas as eficácias das intervenções anteriores; a compreensão da relação entre os danos e os fatores ambientais; se planejar ações preventivas de longo prazo.

Amaral et al. (2007) destacam que, mapeamentos sucessivos permitem “diagnosticar e monitorar situações de risco”. Em conservação, essa lógica se aplica diretamente, ou seja, a documentação comparativa é um instrumento de monitoramento contínuo e documento fundamental para as manutenções periódicas. Neste sentido, a documentação deve ser acumulativa e histórica, para permitir que cada nova intervenção se apoie em registros anteriores, mas sempre com avaliação crítica.


Considerações éticas e profissionais

A ética profissional exige que o conservador‑restaurador baseie as suas decisões em informações atualizadas e verificadas, que os documente abranjam todas as etapas do processo; que se respeite a integridade material e histórica do bem; e que se evitem intervenções desnecessárias ou irreversíveis. Uma avaliação crítica dos mapas de danos é parte desse compromisso ético. Ela garante que a intervenção seja fundamentada em dados confiáveis e que se respeite os princípios internacionais mais avançdos da conservação.


Conclusão

A avaliação crítica de mapas de danos, elaborados por outras equipes e em outros períodos é uma etapa indispensável no processo da Gestão do Restauro. Esse procedimento garante que as intervenções sejam baseadas em informações atualizadas, precisas e metodologicamente coerentes. Além disso, permite se compreender a evolução dos danos, se identificar novas patologias e harmonizar as diferentes abordagens técnicas.

O mapa de danos é um instrumento dinâmico, interpretativo e estratégico. Portanto, a revisão crítica é não apenas uma boa prática, mas uma exigência ética e técnica para a preservação do patrimônio cultural.


Referências

AMARAL, R.; ROSSINI‑PENTEADO, D.; RIBEIRO, R.; MARCHIORI, D.; SANTORO, J. (2007). O mapeamento de áreas de risco como instrumento para gerenciamento de desastres naturais: exemplo no município de Poá (SP). Instituto Geológico da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo.

ARAÚJO, F. E.; ANJOS, R. S.; ROCHA‑FILHO, G. B. (2017). Mapeamento participativo: conceitos, métodos e aplicações. Universidade Federal de Pernambuco.

TINOCO, Jorge E. L. (2009). Mapas de Danos e Fichas de Identificação de Danos. Textos para Discussão. CECI – Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada, UFPE.

TINOCO, Jorge E. L. (2010). Documentação e Diagnóstico na Conservação Arquitetônica. Gestão de Restauro. Disponível em: www.gestaoderestauro.org.

 
 
 

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